Lembro-me de quando era criança, minha cama era grande pra mim, a rua lá em baixo também. E o shopping ficava a quilômetros de distância. O Natal demorava a chegar. A mão do meu pai era a maior que existia. Meu avô sempre sabia das verdades. Eu não duvidava de nada. Dava medo do futuro. Lembro da praia nas férias, do medo do avião. da preocupação em escolher a roupa do ano novo, da saudade de alguém que tinha que ficar em casa nas férias. Lembro-me de como ser criança foi bom. Dava medo de um dia pensar em crescer. O tempo nunca perdoa, e crescer e saber que havia crescido foi devastador. Lembro-me bem do banho de chuva que tomei com minhas amigas em um ultimo dia de aula e você me olhou feio. De copos sujos na pia de minha antiga casa. Da pessoa que me ensinou que o amor era a coisa mais importante do mundo. Do dia em que alguém importante se foi e do dia em que tentou voltar. Do medo de trovoadas e dos pesadelos nas noites escuras. Lembro-me de suas mãos macias. Do abraço no peito acolhedor. Lembro da risada. Do abraço de despedida e de um beijinho na testa pela manha. De umas tarde de dezembro chuvosas, e da cor que o horizonte tinha em sua janela. Lembro-me como era imaginar a dor, imaginar perder alguém. Da hora preferida de alguém, ou de rostos e sorrisos afáveis e tão amáveis quanto. Lembro-me de reviravoltas na vida, do dia em que tudo desmoronou. E do início da nova construção. Lembro-me de rostos que se chamam saudade hoje. Da casa verde com janelas de uma vidraçaria mágica. De ver alguém enpinando pipas no telhado. Do filme no cinema. Do abraço. De um cheiro.
Lembro-me de um tempo, outro tempo... o tempo que eu ainda não conhecia a saudade.