quinta-feira, 29 de abril de 2010

Pai, a palavra de saudade.

Pai.
Pai, pra mim é uma palavra meio cansada agora, meio longe, aperta e ás vezes traz um sorriso.
Faz um tempo que não me escuto dizer essa palavra no seu sentido amplo, correto. Ao chamar alguém: ''Paaaaaiê..'' eu, chamar assim? não, não... nunca mais.

Meu pai tinha 45 anos quando deixou esse mundo.

Quer dizer, deixar, deixar, ele não deixou. Então me corrijo:
Meu pai tinha 45 anos quando deixou o corpo dele e veio morar dentro de outras pessoas.
Meu pai tinha 45 anos, quando em uma noite do mês dezembro deu tchau pra tudo o que ele conhecia para enfrentar o desconhecido. Pra mim ele sempre foi um homem corajoso, único, se você me perguntasse.
Mas se você me perguntasse mesmo, eu poderia passar dias falando dele.

Crianças tem sempre seus heróis, seus sonhos. Eu não sou mais criança, mas em algum momento o tempo me parou e me contou que isso eu sempre iria trazer em mim. Sempre terei meu herói, meu guardião, que vive comigo, sonha com os meus sonhos e fala comigo de dentro pra fora.

Meu pai foi um homem bom. Nem sempre certo, nem sempre justo, não sabia falar muito baixo, nem aceitar muitas ordens, por causa disso sempre quis trabalhar por si só, era seu próprio chefe. Não sabia abraçar muito bem quando eu o conheci 17 anos atrás, mas depois com o tempo aprendeu e gostou.
Mas ele sempre soube rir, conversar, desconversar era o seu forte. Contava piada quando faltava assunto, mesmo que fosse repetida, e dormia na rede um andar a cima de mim, não deixando faltar companhia pra mim quando criança durante á noite. Meu pai era meu amigo.
Nas noites de domingo sentava comigo na pontinha do sofá, para ver desenhos de menino. Eu acompanhava Homem-aranha, Lois e Clark, O Máskara, Super-Homem e tantos outros que passavámos tanto tempo vendo sujando as mãos com o ketchup da pipoca. Meu pai era meu irmão também. Quando acabavam os desenhos, eu e minha irmã sentávamos ás vezes para ouvir suas histórias, nem ele mais sabia oque era fantasia e oque era realidade, sobre um homem de ouro, mágica e princesas com nossos nomes.
Eu também já fui a princesinha do papai.

Mau pai me ensinou a dar soco, pra que nenhum marmanjo implicasse comigo. Meu pai me ensinou que é pra frente que se anda mesmo que algo puxe a gente pra trás. Meu pai me ensinou como o mundo dá voltas e que ninguém vira pedra. Meu pai era um homem sábio, e nem ele sabia o quanto. Tinha somente um par de sandálias de usar em casa e só gostava de roupa velhas, shorts desbotados, odiava ir ao shopping, perder seus sorines, e fazer as coisas na hora em que lhe pediam, tudo isso é meu agora. Meu pai conseguia ter mais manias do que eu.

Meu pai quando moço, dizia que não queria ter filhas por que davam muito trabalho. Teve um menino e em seguida 3 meninas. Que sorte a dele, haha. Poucos dias antes da última vez, me disse:
''Eu não poderia amar mais 3 coisas do que esses três probleminhas que eu tenho.''

Meu pai já foi embora. Ele viajou sem data pra voltar como diz a minha irmãzinha.
E eu morro de saudades todos os dias. Quem pensa que isso fica mais fácil, se engana. Cada dia o coração nos trai mais. Mas ninguem passa por essa vida sem perder, mesmo quem não perde nada, perde essas lições que só quem sabe pode contar. Ninguém pode passar a vida sem se deparar com uma perda, mas é nossa escolha dizer: Adeus ou Até logo.

Meu pai tinha 45 anos quando deixou o planeta terra.
Deu até logo para 4 filhos, 3 irmãos, sua mãe, 2 ex-esposas, um cachorro, muitos Cd's, sonhos e muitas histórias. E deixou um legado, muita coisa para dar continuidade.

Meu pai tinha 45 anos quando deixou o peito dele e correu para o meu.
Desde aquele dia, eu me sinto mais forte. Desde aquele dia ele mora em mim, fala por mim e me guia. Eu jamais estaria mais fraca. Com você em mim. A vida dele ainda está muito longe de acabar.